Varizes de membros inferiores em atletas

Varizes de membros inferiores em atletas

Varizes de membros inferiores em atletas

Fabio H Rossi

Presidente do Instituto de Excelência em Doenças Venosas – IEDV

As veias dilatadas nos membros, principalmente nas pernas, são muito comuns nos atletas. Elas são varizes?O que são as varizes? A sua presença pode prejudicar a performance de atleta? Ou é um problema apenas cosmético? Elas podem trazer consequências reais, físicas e debilitantes?

Os atletas de alta performance estão em constante busca pelo auge da condição física. Dessa forma, cada aspecto da vida é cuidadosamente pensado, monitorado e testado para otimizar o desempenho esportivo. Não é incomum, que esses atletas, reparem veias dilatadas e saltadas nos membros, principalmente nas pernas, durante ou imediatamente depois do exercício físico. Na maioria das vezes, esse é um processo fisiológico normal, e na realidade, em certas modalidades esportivas, como no halterofilismo, no ciclismo, e pedestrianismo, entre outro, ocorre uma verdadeira hipertrofia dessas veias, que podem permanecer dilatadas mesmo após a interrupção do treinamento. Esse é uma transformação normal, e muitas vezes necessária, que aumenta o retorno do fluxo sanguíneo venoso ao coração, impedindo que se acumule na musculatura, escórias metabólicas, como a ácido lático, que pode prejudicar a performance e a recuperação física do atleta. 

Quando suspeitar que sejam varizes? Atletas podem desenvolver veias varicosas?

Sim eles podem. Infelizmente, qualquer pessoa pode desenvolver veias varicosas, mesmo se estiver em ótima forma física. Existem vários fatores de risco para o desenvolvimento das varizes dos membros inferiores, que na realidade, na maioria dos atletas, não existem como: sedentarismo, obesidade, e profissão que obriga a permanência por muitas horas sentado ou em pé. Entretanto, o fator genético, que é um importante fator de risco, não costuma poupar os atletas. Além disso, nos esportes em que existe contato e impacto físico constante, como no futebol, basquete, rúgbi, e artes marciais, a pancada no trajeto venoso, pode provocar a lesão da parede e das válvulas existentes em sua luz, causando flebite, varizes e até mesmo a trombose. Dessa forma, atletas e entusiastas de esportes são igualmente suscetíveis à doença, e como em geral, estão acostumados a forte estresse físico e mental, é muito comum que o esportista ignore a dor, o inchaço, e as câimbras, que são sinais e sintomas de alarme, confundindo os com sintomas osteomusculares. Isso pode ser perigoso pois uma vez não tratadas, as veias varicosas podem progredir e se tornar uma lesão esportiva séria, afetando o desempenho, e em alguns casos encerrando a carreira esportiva. 

Como as varizes podem afetar o desempenho?

As veias varicosas fazem com que o sangue venoso não flua de forma adequada pela perna, e exista um refluxo que provoca o acumulo do sangue nos tecidos. Isso pode trazer consequências graves, uma vez que durante o repouso, cerca de um litro de sangue flui para cada perna, e durante o exercício, esse volume pode aumentar para cinco litros por minuto. O sistema venoso, quando saudável, ​​pode lidar com esse aumento de volume, mas as veias danificadas e varicosas não. Durante o exercício o aumento do fluxo sanguíneo, dilata ainda mais as varizes, e durante a compressão muscular, principalmente da musculatura da panturrilha, pode existir um acentuado aumento da pressão de refluxo, ocorrendo um ciclo vicioso perigoso. À medida que a pressão aumenta na veia danificada, ocorre aumento da dor,  do inchaço, pode ocorrer enfraquecimento do membro, reduzindo a força, a resistência cardiovascular, e o desempenho do atleta. Em geral esses sintomas são sentidos sobretudo no final do treinamento, e podem prejudicar a recuperação e o retorno a atividade física.  Alguns esportes e atividades físicas colocam um grau maior de estresse no sistema venoso como: levantamento de peso, corrida, ciclismo, futebol, balé, que forçam as pernas a suportar um peso maior por períodos mais longos. 

Como saber se minhas veias são hipertrofiadas ou estão varicosas?

A melhor forma de descobrir isso é através da consulta com o médico cirurgião vascular. Através da anamnese e exame físico ele pode saber se você tem uma doença chamada de Insuficiência Venosa Crônica (IVC). Ela é a doença vascular mais comum, acomete 5 a 30% da população mundial. Mas calma! Nem sempre isso é grave, e necessita de cirurgia. A IVC nada mais é da dificuldade do retorno venoso para o coração. Para entendermos isso é importante saber que para que o sangue faça esse caminho, é importante que as veias estejam saudáveis e desobstruídas, e que as válvulas existentes em sua luz, que impedem que haja refluxo do sangue, estejam continentes e suficientes. Nessa situação quando a musculatura da panturrilha é acionada, o fluxo sanguíneo é ejetado em direção ao coração (bomba muscular da panturrilha). Existe uma classificação de gravidade de IVC, denominada CEAP, que a classifica em: C1- telangiectasias (vasinhos); C2- Varizes; C3- Edema; C4- lipodermatoesclerose; C5- úlcera varicosa cicatrizada e C6- úlcera varicosa em atividade. Além do exame físico, é necessário a realização de um exame chamado de eco Doppler vascular colorido que verifica se existe obstrução ou refluxo nas veias principais, como por exemplo nas veias safenas. Devemos lembrar que para caracterizar as varizes devemos ter a presença de dilatação, tortuosidade e refluxo sanguíneo em seu interior. 

Como é feito o tratamento?  A cirurgia é sempre necessária?

Nem sempre! Primeiramente devemos esclarecer, como já mencionamos anteriormente, que muitas vezes, as veias dilatadas presentes nos atletas são normais, e não devem ser retiradas. Sabemos que durante o exercício, existe um aumento do aporte sanguíneo, e um aumento do volume da musculatura da perna, o que pode comprimir as veias do sistema venoso profundo, e dessa forma o retorno do fluxo venoso, se faz preferencialmente pelo sistema venoso superficial. Dessa forma a cirurgia das veias que estejam dilatadas, mas não apresentam refluxo ou obstruídas pode até mesmo ser prejudicial. Caso seja identificada, realmente, a presença de IVC, nos estágios iniciais, pode estar indicado o tratamento clínico, que é feito a base de medicamentos venotônicos, que facilitam e promovem o retorno venoso, e o uso de meias elásticas, ou elastocompressão.  A hidroginástica e principalmente a natação é a melhor opção de exercício se você sofre de IVC, já que na água você fica na horizontal, e ação gravitacional sobre o sangue é menor. 

As meias elásticas ajudam evitar as varizes? E as meias de performance, ajudam mesmo? 

As meias de elásticas de compressão são usadas desde o século dezenove.  Elas não curam as varizes já existentes, mas estão entre as medidas preventivas mais eficazes contra a sua progressão, ao menos temporariamente, e ajudam a aliviar a dor e o edema. A compressão irá contrabalancear o aumento do volume do sangue arterial, que ocorre durante o exercício, evitando que o sangue se acumule nas pernas, garantindo que o sangue continue a circular corretamente. Como resultado, a dor e o inchaço diminuirão, e a recuperação física se faz de forma mais rápida. Elas provocam uma compressão gradativa no sentido caudal-cranial promovendo e facilitando o retorno venoso. Seu uso nas atividades esportivas é mais recente, sendo que seu uso é estimulado para a melhoria da performance, evitar lesões musculares e acelerar o processo de recuperação. Sua principal propriedade é a graduação da compressão. Deve haver um balanço entre propriedade elástica e conforto.  As meias de compressão são confeccionadas em três comprimentos diferentes: na altura do joelho (3/4), da coxa (7/8) e meia calça. Em geral a compressão entre 20 e 30 mmHg é recomendada para pacientes com veias varicosas. Nos portadores de úlceras ativas, e episódio de trombose aguda, ou ainda síndrome pós-trombótica indica- se a compressão entre 30 e 40 mmHg. Nos casos de insuficiência venosa crônica avançada e mais resistente com linfedema volumoso associado, pode haver necessidade de compressão entre 40 e 50 mmHg ou mais. As meias de compressão geralmente são eficazes por quatro a seis meses e precisam ser substituídas após esse período. No entanto, na presença de varizes, seu uso é considerado uma solução de curto prazo e, para resultados de longo prazo, o tratamento cirúrgico deve ser considerado.

Quando está indicada e como é feita a cirurgia? Quanto tempo preciso me afastar dos treinamentos? 

No atleta, a cirurgia deve ser considerada todas as vezes em que as varizes estão presentes, mesmo que sejam assintomáticas, porque durante o esforço físico, o aumento da pressão que ocorre na presença do refluxo sanguíneo pode provocar piora no local e nas veias adjacentes que ainda não estão dilatadas, além de poder provocar alterações tróficas irreversíveis e até mesmo flebites e tromboses. A cirurgia convencional é muito simples e muito pouco desconfortável. Em geral é feita ambulatoriamente, ou seja, não exige internação. O tempo de afastamento do treinamento, depende muito dos achados do eco Doppler vascular, quanto ao número, volume e extensão das varicosidades e da necessidade de retirada segmentar ou total das veias safenas. A cirurgia convencional apresenta excelentes resultados, desde que realizadas por profissionais habilitados, e na atualidade, existem técnica minimamente invasivas de tratamento, como a termoablação (laser e radiofrequência), que ao invés de extrair a veia safena, provoca-se lesão térmica de sua luz que uma vez obstruída acaba sendo absorvida pelo organismo. Sua principal vantagem é um pós-operatório mais confortável e um retorno mais rápido aos treinamentos. 

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